Apesar de a agricultura existir desde o início da humanidade, os conhecimentos que a conceituaram e a caracterizaram, começaram a ser compilados apenas no início do século XIX, por uma galera de nomes difíceis (Liebig, Saussure, Boussingault, Pasteur, Winogradsky, Beijerinck etc).

As informações sobre a microbiologia do solo, ciclos de nutrientes, interações organismo-planta, fisiologiaa vegetal, entre outras, permitiu a manipulação e sintetização de fertilizantes e agroquímicos biológicos e sintéticos. Esse movimento evoluiu junto com a Revolução Industrial, ficando conhecido como a Revolução Verde: mãe da agricultura de precisão, com integração de altas tecnologias. A agricultura de hoje.

Saltamos do que era considerado primitivo, de produtividades insuficientes em longas extensões territoriais, para o manejo intensivo e hiperbólico que sustenta a estrutura social atual.
Pois bem. As consequências desse sucesso, vocês todos já conhecem: degradação ambiental, desmatamento, salinização de solos e corpos d’água, erosão, destruição de ecossistemas naturais. De santo, os métodos agrícolas passaram a ser demonizados.

Surge dentro desse contexto, em meados da década de 70, a salvação messiânica, consciente e sustentável (será?), chamada Agricultura Alternativa, que engloba diversas modalidades de manejo orgânico. Amparadas em um discurso politicamente correto rumo à sustentabilidade, essas modalidades vem ganhando cada vez mais adeptos e especulações incisivas sobre as soluções à longo prazo.

O que todos nós esquecemos é que o mundo já foi 100% orgânico – e deu errado. O ápice de calamidades relacionadas à escassez e má qualidade dos alimentos consistiu em um período que tem até nome: Idade Média.

A fome era constante, os alimentos não aguentavam distribuição por longos trajetos e a contaminação alimentar matava, além de que, não havia controle de pragas e doenças, o que vez ou outra dizimava plantações inteiras. Organizada em feudos, eram executados a rotação de cultura, utilização de esterco animal, incorporação vegetal no solo, plantio direto, manejo com tração animal, entre outras atividades (quem embasam e fudamentalizam os conceitos atuais de agricultura orgânica).

Ok, houve uma leve melhoria na produção quando essas práticas começaram a ser executadas (entre o meio e o fim do período), principalmente enquanto a organização social era dividida em pequenos grupos familiares. Entretanto, com a abertura do mercado e o crescimento das cidades os problemas foram nítidos: não tinha mão de obra e a modalidade de cultivo, então predominante, mostrou-se incapaz de suprir as exigências crescentes do mercantilismo e da industrialização.

E foi aí que a agricultura convencional começou a ser desenvolvida (vide início desse texto): tirando milhares da fome, produzindo em escala, gerando renda e, por incrível que pareça, solucionando problemas operacionais (como a criação de maquinários para substituição da mão de obra e a organização de metodologias ambientalmente eficientes).

Diante da história, àqueles que defendem veemente o sistema orgânico, fica o questionamento: vocês estão dispostos à pagar para ver (de novo)?

 

 

Referências

Baiardi, Almicar. Mudanças Técnicas na Agricultura Medieval e o Processo de Transição para o Capitalismo. Cadernos de Ciência & Tecnologia, Brasília, v.14, n.3, p.449-464, 1997.

Do Carmo, Maristela Simões. A Produção familiar como locus ideal da agricultura sustentável. Agricultura em São Paulo, v.45, n.01, p.1-15, 1998.

Ehlers, Eduardo. O que se entende por agricultura sustentável? Projeto de Dissertação de Mestrado. São Paulo: Programa de Pós-Graduação em Ciência Ambiental/USP, 1993.

Ehlers, Eduardo. Agricultura Sustentável: Origens e perspectivas de um novo paradigma. São Paulo: Livros da Terra, 1996.

Ehlers, Eduardo. Agricultura Alternativa: uma perspectiva histórica. Revista Brasileira de Agropecuária, ano 01, n.01, p.24-37, 2000.

Frade, Carmem Oliveira. A construção de um espaço para pensar e praticar a Agroecologia na UFRRJ e seus arredores. Dissertação de Mestrado. Rio de Janeiro: CPDA/UFRRJ, 2000.

Pianna, Airton. Agricultura Orgânica: a subjacente construção de relações sociais e saberes. Dissertação de Mestrado. Rio de Janeiro: CPDA/UFRRJ, 1999.

Romero, Juan Ignácio. Questão agrária: latifúndio ou agricultura familiar. A produção familiar no mundo globalizado. São Paulo: Moderna, 1998.

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