Os sufixos “idas”, atrelados aos nomes dos diversos tipos de defensivos agrícolas e citados no texto de semana passada, esclarecem sua principal função: matar os alvos, controlando suas populações. Essa necessidade surgiu, pois, quanto mais frequente e repetidos os ciclos de uma mesma cultura em uma dada área, mais propício se é para o crescimento populacional de predadores específicos (fungos, insetos, bactérias etc., ou seja, filhotinhos de pragas nascendo sem parar só porque tem muita comida para eles serem felizes).

 

Nas lavouras, esses penetras são indesejados pois causam injúrias que decaem a qualidade do produto, o tempo de prateleira e, em casos extremos, impedem o desenvolvimento completo do ciclo de vida da planta de interesse. Nós, consumidores finais, exigimos altos padrões visuais (estéticos) dos produtos que chegam à nossa mesa, segregando frutas, verduras e legumes que pareçam machucados, murchos, mirrados ou escurecidos (Deus nos livre de comer cenoura muxibenta ou maçã com larvinha).

Pimentão e morango lideraram o ranking de amostras contaminadas por agrotóxicos em 2010, de acordo com o PARA – ANVISA.

Nesse sentido, apesar de o Brasil ser um dos maiores produtores agrícolas do mundo, o MAPA (Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento) publicou no dia 26 de junho de 2019 um levantamento compilado pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO) em que o país do futebol aparece em 44º lugar na utilização de agrotóxicos, quando comparado com 193 países, consumindo apenas 4,31 kg/ha. A Bélgica, Países Baixos e Itália, por exemplo, que são europeus (e todo mundo quer ser que nem a Europa né? Pois é.) consumiram muito mais (6,89 kg/ha, 9,38 kg/ha e 6,66 kg/ha respectivamente).

 

Mesmo estando atrás no ranking, o volume comercializado foi alto: 541,8 mil toneladas vendidas em 2016, segundo o IBAMA. Desse montante, 76% foi utilizado na produção de cana-de-açúcar, soja e milho, não destinados diretamente para a alimentação humana. Monitorando os níveis que chegam à população, o Programa de Análises de Resíduos de Agrotóxicos em Alimentos (PARA – ANVISA), avaliou mais de 12 mil amostras de alimentos ao longo de 3 anos (2013 – 2015) e, surpreendentemente, 99% das amostras encontraram-se livres de resíduos de agrotóxicos que representam risco agudo para a saúde.

 

Os 84.206 casos de intoxicação por agroquímicos que houve entre 2007 e 2015, foram causados devido à exposição e ao contato direto com os pesticidas. Onde está o problema? A resposta é complexa, cheia de nuances políticas e cientificas, mas alguns agravantes podem ser citados: o não respeito aos períodos de carência e o manuseio inadequado por pequenos produtores rurais, equívocos na aplicação realizada por grandes produtores, ausência de assistência técnica e ineficiência da fiscalização por parte dos órgãos governamentais.

 

Fato é que há dados substanciais para alimentar os dois lados do debate: pró e contra. Delegar a solução somente à legislação ou somente ao banimento de químicos, no entanto, torna-se imprudente. Da mesma forma, os dados positivos não devem ser utilizados para justificar os erros cometidos pelos produtores, quaisquer que sejam. O Agroquímico, ora malvado, ora bonzinho, é nosso. Utilizado por todos. Filho da nossa fome por comida e da nossa sede por dinheiro. Consequência do que somos. Semana que vem olharemos o histórico legislativo e dentro em breve você poderá decidir a pena aos crimes e milagres desse indivíduo.

 

REFERÊNCIAS
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