“As pessoas querem transformar cachorro em criança”, diz adestrador

Texto: Gislei Moura

Os cachorros nem sempre foram animais domésticos. Descendentes de lobos, a sua relação com os seres humanos começou como uma troca de interesses. Ao se aproximar das aldeias, os ancestrais dos cães perceberam que havia ali comida e os homens viram que os animais traziam proteção para suas casas. Assim, com o tempo, os lobos foram deixando de lado seus instintos mais ferozes para se tornarem o melhor amigo do homem. Desde então, os animais exerceram diferentes funções. Já foram soldados de guerra, pastores de ovelhas, guardiões e, atualmente, a posição mais ocupada por eles é a de filhos de quatro patas. A primeira impressão é que a última fase tem sido a melhor para os cachorros. Tão tal que, no último ano, circulou cerca de R$25 bilhões no mercado de produtos para pets no Brasil, 7% a mais que no ano de 2016, segundo as pesquisas do Instituto Pet Brasil. Porém, algo aparentemente positivo, tem tornado esses animais mais ansiosos, dependentes, explosivos e, até mesmo, depressivos. Quando surgem esses comportamentos, os “pais” nem sempre sabem o que fazer para resolver a situação.  E, para reverter esse quadro, que existem os adestradores. Ao contrário do que se pensa, o adestramento não serve apenas para ensinar truques ou tornar cachorros em guardas. Existem diferentes tipos de treinamentos, um para cada problema, sendo alguns deles focados em corrigir os comportamentos e distúrbios dos caninos.

Em Imperatriz, há uma quantidade pequena de adestradores. Um deles é Taliswando Castro, de 31 anos, que é um dos mais antigos da cidade, proprietário da Castro Adestrador e que trabalha na área há oito anos. Sua paixão por cães vem desde a infância, mas, somente quando serviu no Exército foi que o interesse pela profissão de adestrador surgiu. Enquanto servia, Castro acompanhava os treinos feitos com os cachorros e, posteriormente, ele iniciou sua carreira nessa área. Hoje, o adestrador é um dos únicos na cidade a possuir a certificação da Federação Brasileira dos Adestradores de Animais (FBAA) e, por isso, tem uma clientela firmada, já que está sempre preocupado em ampliar seus conhecimentos e exercer um trabalho diferenciado. Assim como muitos, Castro é um apaixonado por cães, porém, como profissional, ele vem, nessa entrevista, alertar sobre os perigos que a humanização desses animais traz, alertando sobre os cuidados que se deve ter na criação dos cachorros e desmistificando a ideia que se tem sobre o adestramento desses animais. Confira!

“Gosto do que eu faço, e com isso consigo gerar tranquilidade para o cachorro e para os donos.” – Foto: Acervo Pessoal

Gislei Moura – Tem muitos tutoriais na internet de como adestrar seu cachorro. Dá para confiar nesses tutoriais de internet? Por que é importante ter um profissional para fazer isso?

Taliswando Castro – Esses tutoriais são complicados. Treinamento não é uma receita de bolo. Não tem como, cada cão tem uma personalidade. Às vezes você pega um tutorial e deu certo para o seu cão, outras vezes pode estragar mais ainda aquele comportamento. Porque, queira ou não, a gente vai entender a expressão do cão, entende quando o cachorro vai atacar, quando ele está com medo. Então, o treinador, o profissional que tenha estudado a respeito, se atualizado, sabe o que o cão vai precisar. Se o cão é possessivo demais, é medroso demais, se ele tem excessividade de dominância. A gente vai trabalhar em cima do problema do cão. Vamos direcionar o dono, o que fazer, o que não fazer em certas situações. Até quando for procurar um adestrador, procurar saber se ele realmente é capacitado. Porque, infelizmente, como em toda profissão, tem aquele que pega o tutorial de internet, coloca uma guia no ombro e diz “sou treinador de cães”. Um bom treinador não gasta menos que R$3 mil em cursos por ano.

G.M – Qual é o erro que os donos mais cometem na criação dos cachorros?

T.C – É a humanização. As pessoas querem transformar o cachorro numa criança. Hoje em dia não se está querendo mais ter filho. Pode ver, todos os casais estão tendo seus filhos lá para seus 30, 35 anos de idade. Então, a pessoa em vez de ter um filho, compra um cachorrinho, adota um cachorrinho. Aí, esse cachorrinho vira o centro das atenções, a pessoa vai fazer tudo por ele. Tira o que é habitual para o cão. Aí isso vai gerar vários problemas. Gera ansiedade, gera medos em excesso, gera possessividade, entre outras coisas.

G.M – E por que esse erro acontece?

T.C – Tem se tornado um hábito comum, todo mundo quer criar. Pessoas que nunca tiveram contato, pegam cães sem estudar antes, sem procurar saber qual a raça que vai se adaptar melhor ao convívio dele. Porque tem raças com temperamento mais ativos, outros mais tranquilos, tem aqueles que passam o dia praticamente dormindo. A pessoa tem sempre que procurar qual é o cão que vai se adaptar melhor à personalidade dele. Se quer um cão que vai correr com você, procure um labrador; ou um cão de guarda também… por aí vai.

G.M – Você falou a respeito das diferenças entre as raças. Tem alguma raça que é difícil de adestrar?

T.C – Olha, me perguntam muito isso. Se for olhar o ranking dos cães mais inteligentes, hoje se diz que é o border collie, aí vem o poodle em segundo. Mas é desatualizado e isso vai muito da área que a pessoa está trabalhando. O border collie é inteligente porque ele trabalha em tudo quanto é tipo de coisa, pastoreio de ovelhas, show dog… essas que estou falando, são raças de temperamento muito forte, atividade muito alta, muita energia, então eles estão sempre procurando fazer alguma coisa. O poodle é um cachorro muito bom. Só que essa inteligência eles usam para fazer traquinagem dentro de casa. Aí tem cães que têm uma capacidade cognitiva mais baixa que outros, alguns falam que é o bull terrier. Eu já peguei um bull terrier que foi muito difícil de trabalhar, ele não pegava tão fácil, precisou de muito mais repetições do que outros. Mas, já peguei cães bull terrier que trabalharam bem mais fácil. Então, vai ter uns mais inteligentes e vai ter uns que não vão pegar tão bem aquilo que você está passando. Mas, se trabalhando com o cão, ele sempre aprende, não tem como não aprender. Não é uma regra.

G.M – Você comentou sobre a humanização, que tem sido um problema a maneira como os cães estão sendo criados. E uma das coisas que acontece também é, não só o carinho excessivo, mas os donos querem corrigir como se fosse uma criança. Nesse sentido, esse tipo de correção é prejudicial?

T.C – Bastante prejudicial. Correção… a maioria não corrige. Na verdade, é pior que com uma criança. Porque com a criança às vezes se coloca limites. Para os cães a maioria não coloca limites. Bater no cão: eu nunca faço isso. Porque eu estou ensinando para ele que se eu for corrigir, ele tem que sentir alguma coisa, o cachorro aprende com isso a morder. Gera uma agressividade, pode gerar um distúrbio. Então, não se bate no cão, a gente usa a linguagem deles, falo o “não” sério, só que nunca grito. Não posso passar insegurança para ele. Eu tenho que mostrar que o que ele está fazendo é errado, a minha expressão facial pode mudar, mostrar que não estou gostando, fazer uma cara de raiva. Mas, em casas que as pessoas gritam demais, o cachorro fica estressado. Até esse ponto da humanização é muito prejudicial para o cão.

G.M – Ou seja, é preciso aprender a criar os cachorros. Sendo assim, qual é a maior vantagem que o adestramento traz para as pessoas?

T.C – Ter um cão mais tranquilo em casa, mais sociável, poder sair. Ter uma visita e entrar em casa seguro, sem o cachorro tentar morder sua visita ou pular nela. Andar sem o cão tentar atacar os estranhos. Um cão que vai saber a hora do passeio, a hora das brincadeiras dele, vai ter uma rotina. Até porque o ponto que gera muito estresse no cachorro é não ter uma rotina. Às vezes você nem precisa treinar muito um cão, com pouco tempo ele já entra no sistema que você quer. Só um passeio, uma brincadeira em determinados horários do dia, o cachorro já começa a melhorar o comportamento.

G.M – E o que o adestramento vai proporcionar para o cachorro?

T.C – O cachorro vai ficar mais tranquilo. Porque ele vai ter meia hora de treino, mas é uma meia hora só para ele. Vai ser gerado um certo conforto para o cão. Tem gente que pergunta “ah, mas ele não vai sofrer com o treinamento?”. Com certeza não, porque a gente usa o petisco, a brincadeira, o elogio, o passeio que o cão adora. Quase todo cão, tem suas exceções, mas a maioria gosta de passear. Quando não gosta é porque tem muito medo da rua, dos carros e a gente vai trabalhar para tirar esse medo, porque dá para tirar. Você condicionar o cão a conviver com algo é o treinamento.

G.M – Então, adestrar o cachorro não é só educar, mas dar qualidade de vida?

T.C – Sim, sim. Porque, o que o pessoal pensa hoje é que “se eu mimar meu cão, fizer tudo que ele quiser, meu cachorro vai ser feliz”. Na verdade, nem tanto, está se tirando o que é natural do cão, ele é um animal. Ele vivia no meio selvagem, no meio de uma matilha, numa hierarquia, ele sabia o que fazer na matilha. Quando veio para o meio familiar, teve muito isso. A pessoa faz tudo pelo cão, ele não precisa fazer nada, toda hora tem comida, toda hora tem carinho. Chegou em casa, está fazendo carinho. Não que não deva fazer, mas que seja com menos intensidade. Tudo demais estraga. Amor demais estraga, pode gerar comportamentos que o cão não deveria ter.

G.M – Percebi nessa conversa que ainda falta muito entendimento dos donos sobre o adestramento, eles veem com um pouco de medo. Então, o que você gostaria que as pessoas entendessem sobre adestramento?

T.C – Olha, que o treinamento não é nada disso que o pessoal pensa, que o cachorro vai sofrer. Na verdade, é muito bom para o cão. Não só porque trabalho na área, mas porque eu vivo isso. Sempre gostei de cachorro, desde criança. É uma área que gosto demais da conta! Gosto do que eu faço, e com isso consigo gerar tranquilidade para o cachorro e para os donos. O brasileiro em si, só procura depois que está acontecendo. Quando o cachorro já está com o temperamento muito explosivo, muito agressivo ou muito medroso. A gente vai trabalhar e resolver aquilo, vai evitar um abandono futuro. Porque tem as pessoas que me procuram, mas infelizmente têm aquelas que quando o cão começa a dar problema demais, se livram dele. Então, é entender que se for pegar um cão, se a pessoa não tiver condições de pagar um treinamento, tem que estudar bastante sobre o que deve e não deve fazer. E entender que o treinamento vai deixar o cão mais feliz em casa, não tem essa de o cachorro ficar travado, ser um robozinho, não vai. Ele não perde o que é natural dele, mas ele vai ficar mais controlado, mais tranquilo, evitando acidentes.

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