Filme do Mês: Gabriel e a Montanha (2017)

Texto: Yanna Duarte

Gabriel e a Montanha acompanha os últimos 70 dias de vida da emocionante jornada de Gabriel Buchmann, um jovem economista brasileiro que após um ano viajando e conhecendo 26 países em desenvolvimento, como o Sudeste da Ásia e África, é encontrado morto em uma montanha em Malaui, em 2009, na África Oriental.O rapaz havia ganhado uma bolsa integral na Faculdade da Califórnia (UCLA), em Los Angeles, assim, decidiu partir em uma jornada um ano antes para estudar sobre a educação em países em desenvolvimento, com a intenção de pesquisar a respeito de políticas públicas em regiões pobres. Há duas semanas de regressar para o Brasil, o mochileiro alegre e com uma insaciável pressa de viver perde-se do caminho de volta e começa a vagar pela montanha, onde acaba morrendo de hipotermia devido à baixa temperatura do local. Naquele dia, Gabriel havia dispensado o guia pois gostaria de fazer todo o percurso em algumas horas, embora alertado a respeito de tal decisão, decidiu sozinho desbravar os caminhos do Monte Mulanje.

Uma jornada de encontro à morte

O diretor Fellipe Barbosa escolhe uma ordem significativa ao dar vida à sua história. Com o ato inicial nos mostrando a descoberta do corpo do jovem aventureiro por dois habitantes locais, e isso não é um spoiler, o que se mostra nas duas horas de filme seguintes é o desenrolar final da jornada de Gabriel e suas descobertas, a oportunidade de conhecer quem fora o jovem, suas aspirações e seu temperamento ansioso por novas vivências. O longa é divido em quatro partes, locais importantes dos últimos passos de Gabriel: Quênia, Tanzânia, Zâmbia e Malaui. Na primeira parte, nos é mostrado a dinâmica de vida do rapaz, que busca absorver a estranha cultura pela perspectiva de um local, e não de um turista. Dispensando riquezas e hotéis, bagagens e conforto, ele tenta se inserir no modo de vida daquela comunidade, comendo da mesma comida de seus anfitriões e fazendo o que mais o alegra, trocando conhecimentos. Por cada casa em que passava, Gabriel doava parte de seu dinheiro às pessoas que o recebiam. Com uma sede de viver e pressa em apreender toda a experiência e estranheza dos locais pelos quais passava, Gabriel era movido por uma curiosidade pelo o outro, uma empatia, que o fazia ser bem recebido aonde fosse. Embora considerado alguém privilegiado, que sempre estudou em boas escolas e possuía certa condição financeira, o personagem principal é rico em simplicidade e afeição pelo próximo. O que faz com que um dos muitos amigos que conquistou durante sua jornada colocasse o nome de seu filho igual ao do estrangeiro.

O modo que a narrativa é construída faz toda a diferença na aproximação que o espectador tem para com a história. Utilizando de narração em off em alguns momentos, ao mesmo tempo em que os acontecimentos corriam, as pessoas que conheceram Gabriel contavam sobre como se sentiram ao saber de sua morte, sobre as especificidades de sua personalidade. É nessa hora que quem o conheceu podia participar do filme não só como ator, mas como um agente construtor na representação daquela aventura. Em momentos como esse, ficava difícil não se emocionar. Parte do sucesso do longa, eu diria, se deve a relação que o diretor do filme tinha com o personagem de sua história. Fellipe Barbosa estudou no Ensino Fundamental e Médio com Gabriel, chegaram a cursar juntos a mesma faculdade de Economia. Ao saber da morte do rapaz, Barbosa se sentiu em dívida para com o amigo há muito tempo já distante. Resolveu mapear os últimos passos de Gabriel de uma forma sincera, através de e-mails que o mesmo enviou para a família, memórias da namorada Cristina – a qual viveu parte da aventura na África ao lado de Gabriel – e das lembranças dos africanos que o conhecera. Fellipe e uma pequena equipe permanecera na África por três meses para as filmagens do longa. As famílias que conheceram Gabriel, guias e outras pessoas importantes na história do rapaz também representaram a si mesmas, dando uma força inegável àquela história.

A contraditoriedade presente em ser humano

Se por um lado a delicadeza e disponibilidade em que Gabriel se mostrava a aprender com o outro encanta e ensina a quem o assiste, seu lado teimoso e, por vezes, egoísta, é algo que incomoda um pouco. Sua urgência em ter todas aquelas experiências de uma só vez culminara em sua morte. Gabriel não media as consequências, era jovem e um tanto imaturo. Tinha pressa e quase não cedia aos “nãos” da vida. Mas foi isso que o matou? Talvez. Se não fosse por essa pressa e toda aquela vontade que ele tinha dentro de si em viver, nunca teria chegado àquela viagem. O mesmo que o matou foi o que lhe mantinha vivo. Um personagem contraditório e potente, vivido muito bem pelo o ator João Pedro Zappa. Caroline Abras, que interpreta a parceira do rapaz, é outro ponto bem acertado no filme. A atriz traz um contraponto interessante ao personagem principal, nos oferecendo um lado igualmente autêntico e crítico em relação à personalidade de seu namorado. A química dos dois em cena é algo forte e natural. Sua participação no filme mostra outro lado de Gabriel e da aventura dos dois.

As locações – ambientes reais e cheio de identidade africana – ganha vida à medida em que o personagem principal o desbrava. Gabriel e a Montanha é um filme que deu certo pela sinceridade e espontaneidade com que conta sua história e por quem o interpreta, mesmo parte dos atores não sendo profissionais. O que, pensando bem, é a razão dessa fluidez e naturalidade com que a película se apresenta. Um filme em que a realidade ultrapassa os mecanismos da ficção e que flerta com o documental. Após conhecer essa história, você se dará conta da bolha em que vive e pensará em fazer uma trip à África, porém, de um jeito um pouco menos intenso que Gabriel, eu diria.

(frase) “A felicidade, a beleza, a verdade, o amor, estão por todas as partes. É só uma questão de reconhecer e optar por buscar a felicidade. E no momento em que você decidir verdadeiramente, internamente por essa busca, você já encontrará pois ela já está lá.”

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